Trabalhando como médico em Portugal

Titulo

O relato abaixo foi escrito por meu marido em seu Facebook. Acho que exemplifica bem o começo do trabalho de quem vem para cá e exerce Medicina em Portugal.

Um novo Sistema de Saúde, infraestrutura diferente e nuances que, só ao longo do tempo, serão entendidas.

Fotos de um dos hospitais que trabalho hoje em Portugal.

Fica em Santarém.

Hoje, trabalho não como neurocirurgião, mas como clínico de urgência.

Quis escrever esse post para terem noção de como é aqui.

Meu começo não está sendo fácil mas não está ruim. Estou gostando de voltar a estudar várias coisas e ajudar mais pessoas.

Não tem almoço de graça … um passo para trás para dois para frente (objetivo, a especialidade. Se anestesia ótimo, se não der, tem CTI, Radio, etc. o importante é ser especialista, ganha-se uns 6 a 8 euros a mais por hora que no montante faz uma boa diferença e o trabalho é mais ameno).

Neurocirurgia é passado (pelo menos é o que eu acho por enquanto). Quero coisas novas para arejar minha vida e ter mais desafios. Talvez usar minha “expertise” em especialidades (neuroanestesia, neurointensivismo, neuroradiologia, etc.)

Então vamos lá, algumas comparações de quando trabalhava no Brasil:

1

1-) Distância
Ainda estou começando aqui, logo, não estou no “filé”, próximo a minha casa. Demoro de 40 min a 1h e 15m para chegar no trabalho. Entretanto, não pego trânsito (às vezes perco uns 5 a 10 minutos do transito do pessoal que vai para Lisboa, mas logo entro em outra estrada vazia. Além disso, estradas impecáveis, vistas fenomenais, sem sinais de trânsito e sem medo de arrastão ou assalto pelas motocas. Entretanto, no Brasil, onde me pagava melhor, demorava o mesmo tempo (Hospital Pedro II em Santa Cruz).


2-) Atendimento
Sem “barracos”. Não existe a falta de respeito que via diariamente com o profissional. Ninguém ousa levantar um dedo aqui. Quando levantam, são colocados no lugar rapidinho. Ninguém tem medo de ninguém aqui (afinal, vc pode estar falando com a ném do chefe do tráfico e levar uns tiros na saída do Hospital não ?). Urgências cheias, mas não tão cheias como nos hospitais onde trabalhava. Vc pode fazer uma anamnese e exame físico decentes. Tudo se pede no computador (labs, imagem, prescrição, solicitações à enfermagem, etc.). Colocamos o cartão da Ordem dos Médicos em um leitor e esse é o seu carimbo. Não se usa caneta. Paciente sai com impressão do resumo do que escreveu para entregar ao Médico de Família para demais orientações. Fazemos tudo no sistema Alert (para quem tiver interesse de conhecer, achei esse link mostrando como é). Importante esclarecer que eles utilizam o Sistema Manchester de Classificação. Nós que conseguimos equivalência e somos generalistas, atendemos pacientes verdes e amarelos (menos graves) e os colegas da Medicina Interna (especialidade, por prova como nossa residência médica, 5 anos de duração) atendem os laranjas e vermelhos. Aproveito para mostrar a duração de cada curso no Internato Médico por aqui (Lista_duração_especialidades_12_10_2012.pdf).

Muito atendimento tosco também, com uma triagem falha (peguei um doente que queria antibiótico para cárie … isso ao meu ver, não deveria nem entrar, mas não gera nenhum estresse, apenas o volume desnecessário que vai minando ao longo do dia). Atendo em 24h, aproximadamente uns 20 a 30 pacientes, mas resolvo todos (ou quase todos, ficando 1 ou 2 para o próximo terminar).


3-) Transferência
Sinto falta de especialistas onde trabalho. Neurocirurgia por exemplo só tem em um ou outro hospital. Então o paciente tem que ser transferido. Ambulância é do Hospital e não demora quase nada.


4-) Acesso à toda informação do paciente
Toda a história dele no Sistema de Saúde está no computador. As consultas ambulatoriais (o que os especialistas escreveram, os remedios que foram prescritos, relatórios dos exames, etc.) ficam listadas. Vemos também as consultas de Urgência anteriores e isso dá uma idéia do problema atual.


5-) Descanso
Confesso que descansava bem mais quando especialista. Hoje descanso umas 2 a 3 horas no máximo. Em um dos hospitais que trabalho, durmo no chão (nada diferente do Pedro II onde as camas quebravam) mas por opção minha. Poderia dormir na maca onde os doentes são examinados (como acontece em muitos lugares no Brasil também) mas sou meio avantajado para isso. Não tem paciente querendo entrar no estar médico para fazer barraco porque alguns profissionais estão no descanso em horários mais vazios. Não quero nem imaginar o que aconteceria a este indivíduo se ocorresse isso aqui.


6-) Comida
É paga. Não gratuita como no Brasil. Mas não me lembro de quase ninguém comer no refeitório porque a comida era de péssima qualidade. Logo, nada diferente. Entretanto, paga-se 4.50 euros para comer uma refeição boa, com escolha de 3 carnes (tipo bacalhau, frango, porco, peixes, outro dia até provei arraia !) e o restante como quiser (arroz, batata, legumes … sinto falta do feijão, mas fazemos em casa), uma lata de refrigerante e uma sobremesa. Refeitórios amplos e limpos e não tão barulhentos.
Na copa, tem biscoitos, pão com manteiga, suco, geladeira, mesa, arroz-doce, entre outros.


7-) Material
Aqui, escolhemos a luva de procedimento (P,M ou G). Não falta nada. Gasometria vem em um kit pronto. Eletrocardiograma, dependendo do lugar, é um técnico que faz. Aparelhos de pressão no consultório (infelizmente os paciente amarelos e verdes não vem com sinais vitais checados) . Termômetro timpânico. Aparelho de pressão digital, só colocar e anotar.
Oftalmoscópio e otoscópio em cada sala. Maca em cada sala.


😎 Respeito
Aqui há bastante respeito com o médico e a enfermagem. É tudo, “Sr. Doutor” pra cá e pra lá. Ouvem, compreendem, não questionam. As pessoas não saem entrando pelas portas, por onde não devem passar, etc.


9-) Colegas
Tenho muita ajuda nesse começo de adaptação a um novo sistema e na clínica geral, muito importante. Meus colegas de urgência são muito solícitos (uma maioria) e entendem minha situação (neurocirurgião virando clínico … não é boa coisa haha). Entretanto estudo todos os dias para me reciclar e aproveitar isso também para a prova de residência aqui.
Confesso que estou me aborrecendo um pouco com colegas mais velhos aqui (uma minoria) e de outras especialidades que simplesmente te acham um zero. Como sei do meu passado, do meu currículo, às vezes aperto aquele “botão” e outras eu confronto e tento colocar a pessoa no seu devido lugar. Mas como não posso me dar ao luxo por enquanto (pois estou no começo, tenho que fazer um nome, etc.), tento evitar. Eu nunca solicitava um parecer antes de conversar pessoalmente e ver se era algo que podia resolver … mas até assim, levo coice. Logo, acho que devo começar a pedir os pareceres sem conversar mesmo. Melhor solução.


10-) Diferenças
Aqui não tem radiologista. Tudo por teleradiologia. Radiologistas acho que ganham menos pois dão laudo de casa. Não temos como discutir com radiologistas (no meu caso queria para aprender, como fazia no Brasil).
Enfermagem em maior número, porém fazem mais do que no Brasil (o técnico de enfermagem quase nada faz, administração de medicamentos só vejo enfermeiro fazer, técnico é para levar paciente, colocar na maca, virar, limpar, dar comida, etc.).
Estacionamento mais amplo no hospital.
Limpeza e organização impecáveis.
Poucos paciente no corredor (aqui tb tem !)
Horario de 9 as 19 e 8h as 20h, mas tb existem horários alternativos como plantões de 15 horas (3 sendo 3 até meia noite e dois de meia noite até outro turno).
Não se escreve na prescrição. Todas as medicações já estão prontas no sistema … é só clicar. Mesma coisa com o laboratório, vc vai clicando nos exames que quer. Troponina de alta sensibilidade no público.
Um hospital que trabalho, colhemos a gasometria e depois coloca-se em um tubo que vai por uma cano, chegando direto ao laboratório no andar superior (vi tentarem no Hospital Miguel Couto no Rio, onde trabalhava, mas não sei se ainda funciona).
Chamamos os pacientes por alto-falante, não tem que ficar se levantando a todo momento para chamar ninguém.
Poucos portugueses nas urgências (muitos estrangeiros, angolanos, venezuelanos, bolivianos, romenos e brasileiros). Os portugueses estão se especializando e/ou saindo de Portugal.


11-) Valores
Ganhamos de 19,25 a 25 Euros/Hora como generalistas, 26 a 28 euros como especialistas e 40 a 50 euros como anestesistas. Parece pouco, mas depois que vc vê o custo de vida, vê que dá para viver uma vida boa, sem luxo (nesse começo pelo menos, onde só eu estou trabalhando e Fátima estudando) mas sobra um pouco para guardar. No Brasil, ganhávamos muito bem porém gastávamos muito para manter um padrão confortável e com segurança. Sobrava pouco. Aqui não há ostentação, a não ser de currículo. Carro, roupa, etc. ninguém liga.

Acho que é isso, se esqueci de falar algo me lembrem !

Espero que gostem, Fiz pensando que gostariam de saber como é por aqui, seja por curiosidade ou interesse.

Em suma, se os colegas que não vêem a mínima possibilidade de dar esse passo para trás e passar por tudo isso que estamos passando, uma dica: nem percam tempo!

Às vezes, pode-se tentar a sorte de conseguir revalidar a especialidade, mas não será de graça. Terá sacrifício, doação de tempo sem receber por isso, anos a mais, gastos sem retorno e dupla função (fica como indo em estágio quase diário e tem que tirar forças para trabalhar depois para pagar as contas em plantões de generalista).
A não ser que você tenha um MEGA currículo e os portugueses “abram as portas” para você de mão beijada (como se vc fosse um “superstar” para eles e eles querem você de qualquer jeito e que, mesmo assim não acredito, pois ninguém quer ter seu brilho ofuscado não é mesmo ?), acho que será dessa forma.

Por isso minha decisão de começar do zero e encarar o problema de frente.

Vamos ver no que isso vai dar e quero ler esse post nas Lembranças do Facebook em alguns anos !”

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16 Comments

  1. Beatriz Manetti dos Santos disse:

    Muuuuuito legal seu post!!!! Clareou bastante umas dúvidas q eu tinha!!
    Obrigada por compartilhar 🙂

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  2. Cláudia Perez disse:

    Desejo muito sucesso pra vcs!! Que essa determinação seja contínua, para que vcs cheguem aos objetivos desejados!!! Muito bom saber como as coisas funcionam aí em Portugal!! Estou aguardando a resposta do meu processo de equivalência. Obrigado por compartilhar essa experiência!!! Abs

    Curtido por 1 pessoa

  3. Márcia Cardoso disse:

    Sou anestesista no Brasil. Há pouco mais de dois anos. Já consciente de que tenho de refazer boa parte do caminho caso mude de país. Mas é muito bom ler que é possível. E gera forças para tentar. Voltar para a clínica, PS é dureza. Rsrs. Bom, levar coice é até comum na anestesiologia – o velho “conflito de interesse” entre anestesista e cirurgião(ões). Só que tenho devolvido muitos na mesma moeda. Hahaha. Continue persistente, trabalhando arduamente. Espero começar o início da minha jornada em breve.

    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

  4. MARCOS PAULO LOEWENTHAL PIMENTEL disse:

    Bom dia, texto muitissimo interessante. Eu apesar de ser cirurgiao do aparelho digestivo e pai de dois filhos ja me conformei que não vai rolar a especialidade ai (como dicar 4 ou 5 anos sem ganhar nada com 2 filhos e esposa ?).
    Duas duvidas :
    1- existe algo alem de plantao em urgencia/emergencia existem outras opções para os não especialistas ?;
    2- existe algum plano de aposentadoria ?Ou serei planronista ate o fim da vida?
    Mais uma vez, parabens pelo post.
    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

    • Fatima Calani disse:

      Marcos, tudo bem?
      Não necessariamente ficará sem receber nada. como disse, cada caso é um caso. Acho que vale correr atrás de informações e conversar com os responsáveis antes de tomar qualquer decisão.
      1 – plantões e atendimento ambulatorial, até mesmo em penitenciárias.
      2- Você pode utilizar o tempo que trabalhou ai para reduzir aqui em questão de aposentadoria. Preciso ver isso com mais calma, porém existe sim.
      Boa sorte!

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  5. Flavia disse:

    Muito obrigada.
    Eu sou médica brasileira e cidadã britânica. Trabalhei em Londres por 7 anos e foi tudo muito parecido.
    A difreença é que lá paga um pouco mais porém custo de vida muito mais alto.
    Decidimos morar no Rio desde 2009 e com tudo pioor (violência, crise) decidimos retornar à Europa.
    Meu marido é inglês e quer voltar para Inglaterra mas eu quero ir para Portugal dessa vez! Temos um casal de filhos e
    Acho que seria melhor para todos nós. Dr Rafael esta dando entrada na ordem para mim.
    Veremos …
    Sei bem como é todo o inicio em um país novo.
    Com garra , paciência e determinação conseguimos
    Boa sorte!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Francisco Assis disse:

    Poxa, muito legal ler tudo isso. Consegui minha validação e já fiz inscrição na Ordem dos Médicos. Agora quero “criar coragem” pra enfrentar tudo isso. Quero fazer um residencia aí, será que pode me indicar os caminhos?

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    • Fatima Calani disse:

      Francisco, que bom que gostou!
      Estou no processo para entrar no internato (residência), quando finalizar irei escrever sobre, mas a prova apenas em novembro.
      Boa sorte e não desista.

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  7. franciscori disse:

    Que bom ler tudo isso. Excelente informação. Eu consegui validar meu diploma e já sou inscrito na ordem dos médicos. Agora, me falta “criar a coragem” para seguir meu desejo de ir morar por aí. Contudo, eu gostaria de fazer uma residencia médica. Será que poderia me orientar como funciona isso (inscrições; material de estudo: etc). Muito obrigado e muito sucesso pra vocês.

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  8. Leticia Rocha disse:

    Adorei as informações, obrigada! Tenho uma pergunta, talvez possam me ajudar: tenho residência e vários anos de experiência em Medicina de Família. Não tenho interesse em trabalhar no hospital… é possível conseguir trabalho na Atenção Primária após a equivalência?

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    • Fatima Calani disse:

      Olá Letícia!
      Como especialista, apenas revalidando sua residência em medicina de família aqui. Caso contrário será uma médica indiferenciada, trabalhando e ganhando como tarefeiro (clínico geral), seja em hospital ou “posto de saúde”.
      Bj e boa sorte!

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