Defesa da Tese de Mestrado para Equivalência em Medicina

Titulo

Dando continuidade ao Post 2, vou relatar a escolha do tema, sobre minha orientadora, por qual universidade fiz o processo de equivalência e muito mais.

Qual Universidade escolher para Equivalência de Diploma em Medicina?

Em 2013 não tinha essa quantidade de médico brasileiro querendo ir para Portugal, época que decidimos sair do Brasil. Lembro que em 2015, se não me engano, saiu uma reportagem com o aumento do número de processos de forma absurda. Essa breve introdução é para mostrar que hoje o cenário mudou muito. Até podemos escolher, só que atualmente nem todas as Universidades estão aceitando inscrição, então na minha humilde opinião, quem realmente deseja iniciar o processo, abrace aquela instituição que se encontra aberta. Continuando… tive oportunidade de escolher e minha opção foi a Universidade do Porto – ICBAS, estando entre as melhores universidades do mundo, fato este que chamou minha atenção.

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No período em que aguardava a resposta sobre minha documentação, fiquei pensando qual seria meu tema. Inicialmente pensei em esclerose múltipla, sempre fui apaixonada por neurologia, na época que atuei como fisioterapeuta, tive alguns pacientes, mas após pensar com calma, vi que poderia ser engolida pela banca examinadora, visto que a Europa entende muito do assunto e eu uma simples recém-formada. Minha segunda opção de trabalho foi hanseníase, pois quando acadêmica tive o prazer de acompanhar vários casos e após formada não foi diferente, fato que me fez ter muito interesse e estudar sobre a doença. Um dia, em conversa com minha futura orientadora, a mesma disse: “Não faça isso! Hanseníase é o temor de qualquer dermatologista, é um buraco sem fim. ” Então pensei: Quem sou eu para bancar isso? Como não sou nada nem ninguém, recuei mais uma vez. Com isso minhas opções terminaram, pois o que teria vontade de falar muito provavelmente iria me atrapalhar a conquistar o título. Foi quando minha querida orientadora e amiga Carolyne me deu uma luz, sugerindo que o tema fosse esporotricose. De cara torci o nariz e pensei: Que coisa mais básica! Então eu afirmo após trabalho concluído, ledo engano!

Vamos ao que interessa, após decisão do tema comecei minha pesquisa no PubMed, não queria o tema do meu trabalho sendo esporotricose e ponto final, então depois de muita leitura, encontrei um artigo que falava sobre a epidemia de esporotricose no Rio de Janeiro, isso foi o suficiente para acender uma luz e trazer para Portugal algo bem diferente.

Optei por revisão bibliográfica e apresentação de dois casos clínicos, com isso reforçava o tema do meu trabalho e artigo que tomei como base (o mesmo foi premiado). Realizei revisão de 70 artigos científicos. Sim, eu li por completo os 70 artigos mais três livros de dermatologia sobre o respectivo assunto. Minha orientadora fez a revisão, alguns ajustes, deu dicas e após dois meses o trabalho estava pronto.

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Dez dias antes da apresentação cheguei no Porto, passei todos os dias “trancada “no hotel (na ocasião foi o Hotel Infante de Sagres no Porto, muito recomendado), apenas saindo para comer e assistir a defesa do meu marido (tema foi sobre um paciente neurocirúrgico operado por ele). Nesse tempo, treinei muito, pois teria apenas 15 minutos de apresentação e nada mais (vale a pena levar um pointer com timer vibratório, como fizemos, no caso foi Logitech), não seria bom terminar antes, na verdade, queria precisão no quesito apresentação, ficando assim horas na frente do espelho repetindo a apresentação até conseguir. Lembro também que não parava de ligar para minha orientadora, cada dia tinha mais dúvidas e percebia que o assunto não tinha fim, que eles poderiam perguntar as mais variadas coisas, foi quando surtei e comecei a ler mais sobre imunologia, não sei dizer, mas foi um anjo me guiando para estudar mais sobre isso, falo isso pois na minha banca examinadora  tinha uma imunologista, a chefe da dermatologia do serviço da Universidade do Porto e o professor Dr. responsável por esse processo de equivalência.

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Cheguei antes da hora marcada e havia uma pessoa apresentando o trabalho, fiquei todo tempo concentrada, não queria ler mais nada, apenas desejava entrar e terminar com aquela sensação de medo e insegurança. Eis que chega minha hora, então tiro meu casaco, coloco meus óculos, pego minha caneta slide e penso: vamos com tudo!

O Presidente da mesa explica que terei 15 minutos de apresentação e depois uma hora de perguntas e respostas, me desejam boa sorte e eu começo. Como mentalizado e devidamente treinado, cumpri a promessa feita a mim, apresentar sempre no mesmo tom de voz, não tremer, não ficar apontando o laser para todos os lados, não esquecer de falar absolutamente nada, pronunciar os nomes corretamente e terminar faltando apenas alguns segundos. Assim que terminei fui elogiada pela ótima apresentação, que os slides apenas me guiavam, que as fotos eram ótimas, que havia apresentado muito bem… Ufaaaaaaa! Só que não terminava ali, infelizmente. Depois começaram a falar sobre o trabalho, que o mesmo estava muito bem escrito, que utilizei excelentes artigos, que os casos clínicos estavam bem explicados, que era um trabalho agradável de ler, bem como minha dedicatória era muito bonita. Foi então que percebi que eles leram todo o meu trabalho, sabiam cada detalhe, impressionante.

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Após os elogios, vamos para dura realidade das perguntas. A primeira foi sobre a decisão de validar o diploma em Portugal. Foi um momento muito bonito e emocionante, tanto que a banca ficou emocionada. Depois só bombardeio, sabe aquela música pega a metralhadora e trátrátrátrátrátrá, foi exatamente assim. A especialista em imuno, fez tanta pergunta, mais tanta que o Presidente da mesa logo deu um basta e passou a palavra para a próxima professora. Deixo claro uma coisa, em nenhum momento senti que o desejo era me atrapalhar ou prejudicar, tanto que em um dado momento não sabia como responder, eles ajudaram com uma dica e eu consegui concluir o raciocínio.  Após 60 minutos de ping pong, elogiaram meu curriculum e disseram que era uma mulher de trabalho. Pediram para aguardar alguns minutos que iriam avaliar e dizer se havia sido aprovada, passado 05 minutos escutei um maravilhoso –“bem-vinda à Portugal”. Saí da sala, me dirigi à secretaria onde assinei alguns documentos e voltamos para o hotel felizes e fortalecidos para o próximo passo.

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Perguntas frequentes:

– Houve facilidade por ser cidadã portuguesa? Não. O meu processo foi idêntico ao do meu esposo.

– Seu esposo é formado pela UFRJ, ele conseguiu a equivalência de maneira automática? Não. Isso é passado, esqueçam isso. O processo é igual para todos.

– Vocês fizeram prova? Caso não tenham feito, por qual motivo não foi solicitado? Não. Até hoje não sei como não fiz prova, já que era recém-formada e fiz faculdade particular. Acho que possa ter sido pelo meu curriculum, pois sou instrumentadora cirúrgica, fisioterapeuta e médica, sei lá! Jamais terei essa resposta.

– A banca avaliadora facilitou as perguntas por você ser recém-formada?  De forma alguma, segundo meu esposo minhas perguntas foram mais complicadas e demorou mais tempo.

– Quanto tempo levou da data que entregou os documentos até a defesa? Um ano e quatro meses.

– Após a defesa, o documento sai automaticamente? Não. Esperamos seis meses para receber o documento.

– Com o documento da equivalência em mãos, já sou médico (a) em Portugal? Não. Você precisa fazer a inscrição e solicitar autonomia (assunto para outro post).

Caso tenha dúvida, escreva no comentário que tento ajudar.

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22 Comments

  1. Cecília disse:

    Muito bem explicado Fátima! Este post será de grande ajuda! Fiquei com uma dúvida…Notei que na apresentação do seu esposo e na capa do seu trabalho você colocou o logotipo da universidade do Porto. Eu não havia pensado nisso, você acha que devo colocar o logo em meu trabalho também? Quais eram as especialidades dos demais médicos na sua banca? Obrigada!

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    • Fatima Calani disse:

      Cecília, os trabalhos ficam arquivados na Universidade, acho sempre interessante colocar a logomarca da instituição, sempre fiz isso em todos os meus trabalhos, mas fica a seu critério.
      Minha banca era a chefe do serviço de dermatologia da U.Porto, a chefe do serviço de imunologia e o responsável pelos processos de equivalência.
      A banca avaliadora do meu esposo foi composta pelo chefe da Neurocirurgia da U.Porto, um staff do serviço e o responsável pelos processos, o mesmo que estava avaliando o meu.
      Fico feliz que tenha gostado.
      Bj e boa sorte!

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  2. Beatriz disse:

    Mto bom o post Fátima!!! Vc escreve bem, gostoso de ler!
    Foram eles que solicitaram q vc fizesse uma defesa de trabalho?? Ou vc tinha alguma outra opção?? (como hj q existe apresentar a monografia da faculdade ou o relatório curricular??)
    Parabéns por td!! E obrigada pela ajuda 🙂

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    • Fatima Calani disse:

      Olá Beatriz!
      Fico feliz que tenha gostado do blog. Quando escrevo sempre tento passar como se fosse uma boa conversa entre amigos.
      Na época foi enviado as orientações e os modelos que poderia optar, tinha essa opção de relatório e outras, mas eu escolhi a revisão com caso clínico.
      Espero ter ajudo. Bj!

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  3. Jorge Vilas boas disse:

    Parabéns pelo post! Gostaria de saber quanto tempo voê demorou para conseguir revalidar o diploma.

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    • Fatima Calani disse:

      Feliz que tenha gostado.
      Da data de entrega da documentação até a inscrição na ordem dos médicos, foi de Set/14 a Dez 16. Obrigada pelo apoio !

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      • Jorge Vilas boas disse:

        Nossa! Um tempo bom pra quem é recém-formado e deseja fazer residencia lá… ficar 2 anos “esperando”… mas deve valer a pena. Obrigado pelas informações!

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      • Fatima Calani disse:

        Olá Jorge! Eu não aguentava mais o Brasil, então valeu e vale a espera e qualquer dificuldade nesse início.
        Fico feliz que as informações tenham servido.

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  4. JESSICA GONZAGA LOPES disse:

    Como é o processo seletivo de residencia ? Prova igual a do Brasil ? Estou fazendo oftalmo mas quero ir para portugal.
    A validação exige ingles fluente ?
    Obrigada

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  5. Ana Carolina Sangalli Lucas Morais disse:

    Olá Fatima! Sou Ana Carolina, médica formada na UFF há 10 anos e fiz dermatologia no Azulay há 4 anos. Trabalho como tal desde então. Tudo ia bem, até que tive filho e comecei a ver que a situação aqui no Brasil não estava boa para ele. Eu e meu marido (advogado já com a ordem de Portugal) decidimos ir morar aí! Estou começando a ver o processo de validação de diploma agora. Adorei o seu blog! Tudo muito bem explicado e atualizado. Mas fiquei com uma dúvida em relação a essa tese que você apresentou. A orientadora precisa ser de universidade portuguesa ou pode ser alguém daqui? Como ainda moro aqui, essa etapa seria mais fácil para mim se fosse feita com orientação daqui.
    Obrigada por gastar seu tempo fazendo esse blog tão bem feito!!
    Boa sorte por aí!!

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    • Fatima Calani disse:

      Olá Ana Carolina, como vai?
      Parabéns pela decisão, não é fácil mas vale, principalmente por nossos filhos.
      Fico feliz que tenha gostado do blog. Queria eu na época ter essa ajuda, lembro que fui defender o trabalho sem saber o que me aguardava, causando um certo medo. rs
      A minha orientadora foi a Carolyne Farias Boggiss, dermatologista formada pela UFRJ, então pode ficar tranquila, não é necessário ser orientador daqui.
      Beijo e boa sorte em seu processo, qualquer coisa só perguntar.

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  6. Kelen disse:

    Aonde posso verificar se estão abertas as inscrições para equivalência ? Porque sites são as vezes confusos ! Me ajuda 😬

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    • Fatima Calani disse:

      Kelen, como expliquei para você no facebook. Leia o blog com calma, se não me engano tenho 7 postagens explicando tudo o que você precisa saber nesse início. Faltando apenas falar sobre ano comum, internato médico etc. Coisas que você não precisa saber nesse momento.
      Tenho um post com todas as universidades e link para as mesmas, tudo detalhado, basta procurar e ler. Preciso até dar uma atualizada, pois no momento todas, acho que exceto Algarve, estão fechadas no momento.

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  7. Nayara Antelo disse:

    Excelente texto!! Elucidou várias dúvidas!! Parabéns!!

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  8. Ana disse:

    Boa tarde Fátima! Excelentes informações ! Será que poderia me ajudar com uma informação? Quem já tem Mestrado no brasil, pode defender a mesma tese? Já seria um “problema ” a menos!!!

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  1. […] passar pelo processo de equivalência (Post 2 e Post 6), inscrição na Ordem dos Médicos e finalmente possuir sua cédula profissional, todos iniciam […]

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